De modo a esclarecer possíveis dúvidas em relação a minha entrevista na Veja, sobre o caso do gorila Harambe, já que a matéria foi editada, coloco abaixo cópia fiel das perguntas que respondi por e-mail:

 

VEJA – O gorila demonstra comportamento agressivo em algum momento, ou não?

HELENA TRUKSA – Acredito que ele demonstre mais um estado de confusão momentâneo do que agressividade. Em nenhum momento ele deixa claro querer agredir a criança, haja visto que Harambe a conduz pelas mãos ao longo do recinto. Por vezes, em algumas cenas pode parecer agressivo o modo como leva o garoto pela água, rapidamente.

Porém, devemos lembrar que gorilas possuem uma força sobre humana e certamente não a pretendia usar contra a criança. Ao contrário, o que se pode ver em outros vídeos do incidente (não apenas o momento em que o garoto é levado pela água), é um animal notadamente protetor, que busca ajudar o pequeno, ele um diversos momentos fica sobre o garoto, como se quisesse protege-lo circundando-o com os braços.

Grandes primatas são conhecidos por terem uma grande capacidade cognitiva, e formam famílias com estrutura parecida com a nossa. O comportamento de ajudar, especialmente demonstrado pelos machos do grupo fica evidente nesta situação. Se ele tivesse intenção de ferir a criança, ele teria feito com apenas um golpe de seu poderoso punho.
A confusão momentânea, aliada à curiosidade demonstrada no inicio, pode ter sido deflagrada pelos gritos de terror das pessoas do lado de fora do recinto. Neste momento, teria sido melhor se tivessem mantido a calma, embora isso seja bastante difícil.

VEJA – O que o comportamento do gorila indica no vídeo?

HELENA TRUKSA – Já comentado acima.

VEJA – Matá-lo era a única alternativa, neste caso?

HELENA TRUKSA – Acredito que poderia haver soluções menos radicais, porém, caso algo desse muito errado (mesmo se o menino por si só se machucasse no concreto) o zoo seria responsabilizado e processado, podendo até mesmo ser obrigado a encerrar as atividades.

Seria uma situação péssima inclusive para os demais animais do acervo. Lembremo-nos de que uma das finalidades dos zoológicos é educação ambiental, e conservação de algumas espécies. Isso poderia ser interrompido caso tivessem a licença de funcionamento revogada.

É um sem número de consequências que poderiam ocorrer. E o menino devera já estar ferido pela própria queda em si, agravando o quadro. Mas talvez, se o staff do zoo tivesse removido os visitantes e mantido a calma, tivessem a oportunidade de trocar o algum alimento ou outra coisa pelo garoto e Harambe estaria vivo ainda (ele estava acostumado com pessoas)

VEJA – Existe diferença desse caso para o do garoto que caiu anos atrás e foi “carregado” por uma fêmea gorila até a porta de acesso do local? Existe essa diferença comportamental de uma fêmea e um macho frente a essa situação?

HELENA TRUKSA – As fêmeas costumam ser ainda mais zelosas com os infantes.

VEJA – Em uma matéria do Daily Mail (http://www.dailymail.co.uk/…/Australian-animal-behaviour-ex…), um especialista fala que o gorila não estava demonstrando agressividade e que estava apenas “investigando” o menino. Você concorda?

HELENA TRUKSA – Concordo, sem dúvida. E demonstrando cuidados (no repertório gorila, claro).

VEJA – A senhora é a favor ou contra a atitude do zoológico?

HELENA TRUKSA – É muito difícil ter um posicionamento sem vivenciar o fato em si. É como descrevo em uma das respostas anteriores. Não posso julgar nem condenar, mas também não aprovo 100%. Porque cada profissional sabe e avalia as consequências de seus próprios atos. Talvez eu tivesse outra ação, mas mesmo assim difícil precisar.

LINK DA MATÉRIA: http://veja.abril.com.br/ciencia/gorila-harambe-nao-demonstrou-agressividade-afirmam-especialistas/


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